"Por que a tradução nos atrái tanto?
Pare para pensar nos livros que você leu nos útlimos 10 anos (não tenho um motivo especial para escolher esse número; é somente o primeiro que veio à cabeça). Pare para pensar nos filmes que você assistiu nos últimos 10 anos. Para para pensar nos aparelhos eletrônicos que você adquiriu nos últimos 10 anos.
Depois de ter refletido sobre tudo isso, faça a si mesmo a seguinte pergunta: "todos os bons momentos proporcionados por tudo isso contam com a contribuição de algum tradutor?". Inetivalmente a resposta será, SIM.
A tradução não é Deus, mas é onipresente, pois ocorre em todos os lugares do mundo e do tempo. E por não ser Deus, a tradução carece de oniciência e onipresença - quem fosse um ofício divino o do tradutor! talvez fosse mais reconhecido. Dá para perceber como não vivemos sem traduções? Até mesmo você age como um tradutor, quando transforma a profusão de pensamentos que vem à sua mente na tessitura de palavras escritas sobre a face branca de um papel - ou sobre a tela plana de algum aparelho eletrônico.
Quando penso nas vidas que já foram salvas com o advento de novas técnicas cirúrgicas, o uso de novos medicamentos, a implementação de novos aparelhos de resgate, etc, sinto-me não mais um tradutor (e nem muito menos um super-herói ou coisa do tipo), mas o mais humilde e inútil dos servos. Vejo que o simples ato tradutório tem feito um bem gigantesco ao planeta, ainda que discretamente. Pode até continuar em sigilo que muitos trabalham arduamente neste mundo tradutório, mas o que não pode persistir como um segredo é que sua vida é permeada pelas mãos de algum tradutor.
Antes de repetir a triste adágio "tradutore, tradittore" (como não sei italiano, me perdoe se estiver errado), leve em consideração o que estes "traidores" já fizeram, mesmo que indiretamente, pela humanidade."
Marlon muebeitoa yu ajue beisie.
Let's learn a foreign language!
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quinta-feira, 17 de abril de 2008
O Foco da Língua
Sabe, um dos grandes problemas que qualquer tradutor enfrenta é saber como funciona a língua estrangeira como trabalha. Não falo sobre compreender como são formadas as frases, como as palavras são derivadas, qual a ordem dos termos de uma oração, enfim, gramática e companhia.
A real dificuldade é sacar o que é importante dentro da estrutura lingüística e cultural de um idioma. Perceber qual é o foco de determinada língua ao expressar estados, relatar ações e explicar fenômenos.
Eugene Nida é um dos teóricos da tradução que comenta sobre este fato interessante. Em um de seus livros, ele cita o seguinte exemplo: he swam across the river. Qualquer tradutor desatento, ou estudante de inglês metido a sabidão, certamente verteria esta frase de forma literal, o que geraria esta “maravilha”: ele nadou através do rio (ou “pelo rio”). Alguns mais espertinhos talvez traduzissem como, “ele nadou até o outro lado do rio”.
Tudo bem. Estas são opções aceitáveis, desde que você não leve em conta a diferença de foco entre a língua inglesa e a língua portuguesa. Em inglês, o modo como algo é feito é mais relevante do que a ação em si. Por isso existem tantos verbos ingleses com a idéia de como é ou foi executada certa ação embutida neles (também existem alguns em português, mas não tantos, por exemplo: “beber”, “bebericar” e “entornar”). Já em português, a forma como se faz algo é uma informação secundária, pois o ato em si é o que mais importa.
Então, he swam across the river fica mais propriamente vertido da seguinte maneira: “ele atravessou o rio a nado”. Outros exemplos: she padded across the room, “ela atravessou a sala de mansinho (sem fazer barulho)”; the police officer shot a man to death, “o policial o matou o homem com um tiro (a tiros)”.
Outra situação engraçada, mas muito interessante, são os momentos em que um adjetivo em inglês se torna um substantivo em português e vice-versa. Increased punishment, “aumento de pena”; terrorist financing, “financiamento ao terrorismo”; deviant behaviour, “desvio de comportamento”; poor health, “problemas de saúde”.
Assim, é preciso que um tradutor entenda o que cada idioma com o qual trabalha valoriza, para que produza traduções fluentes e naturais dentro da tessitura lingüística e cultural de chegada.
A real dificuldade é sacar o que é importante dentro da estrutura lingüística e cultural de um idioma. Perceber qual é o foco de determinada língua ao expressar estados, relatar ações e explicar fenômenos.
Eugene Nida é um dos teóricos da tradução que comenta sobre este fato interessante. Em um de seus livros, ele cita o seguinte exemplo: he swam across the river. Qualquer tradutor desatento, ou estudante de inglês metido a sabidão, certamente verteria esta frase de forma literal, o que geraria esta “maravilha”: ele nadou através do rio (ou “pelo rio”). Alguns mais espertinhos talvez traduzissem como, “ele nadou até o outro lado do rio”.
Tudo bem. Estas são opções aceitáveis, desde que você não leve em conta a diferença de foco entre a língua inglesa e a língua portuguesa. Em inglês, o modo como algo é feito é mais relevante do que a ação em si. Por isso existem tantos verbos ingleses com a idéia de como é ou foi executada certa ação embutida neles (também existem alguns em português, mas não tantos, por exemplo: “beber”, “bebericar” e “entornar”). Já em português, a forma como se faz algo é uma informação secundária, pois o ato em si é o que mais importa.
Então, he swam across the river fica mais propriamente vertido da seguinte maneira: “ele atravessou o rio a nado”. Outros exemplos: she padded across the room, “ela atravessou a sala de mansinho (sem fazer barulho)”; the police officer shot a man to death, “o policial o matou o homem com um tiro (a tiros)”.
Outra situação engraçada, mas muito interessante, são os momentos em que um adjetivo em inglês se torna um substantivo em português e vice-versa. Increased punishment, “aumento de pena”; terrorist financing, “financiamento ao terrorismo”; deviant behaviour, “desvio de comportamento”; poor health, “problemas de saúde”.
Assim, é preciso que um tradutor entenda o que cada idioma com o qual trabalha valoriza, para que produza traduções fluentes e naturais dentro da tessitura lingüística e cultural de chegada.
Expressões Problemáticas
Desde quando comecei a traduzir (na época do colégio ainda...), percebi que algumas palavras, e por vezes, frases inteiras ficavam sem sentido ao traduzir para o português. Eu tentava arrumar, mas nem sempre conseguia. Certas palavras quando usadas sozinhas possuem um sentido, mas quando usadas em conjunto com outros, ganham uma nova significação.
Por exemplo, se digo que “João vestiu o paletó novo”, alguém pode me perguntar para onde ele estava indo, ou quando comprou esse paletó, ou se era bonito, etcetera e tal. Mas afirmo que, “João vestiu o paletó de madeira”, com certeza ele não foi a uma festa a fantasia, mas “partiu dessa pra melhor”, “se foi”. Estas são apenas algumas das milhares expressões idiomáticas existentes em português. É preciso conhece-las previamente para não gerar traduções estranhas ou sem sentido algum.
Se ouço em língua inglesa que, Johny kicked the ball, entendo que um tal de Johny chutou a bola, não sei por que, não sei pra onde, não sei quando, mas ele de fato chutou a bola. Entretanto, se alguém me diz que, Johny kicked the bucket, não significa que ele estava zangado e de repente chutou o balde num acesso de raiva, ou mesmo por brincadeira. Esse Johny não está mais entre porque, he passed away, he’s gone, ou seja, “Johny bateu as botas” (meus pêsames...).
E alguém afirma que, Ted hit the ball. Ou seja, o dito cujo pegou um bastão a bateu na bola, que voou para longe ou só rolou um pouquinho (depende da força que esse tal de Ted exerceu contra a ela). Mas, se Ted hit the bottle, não posso imaginar Ted despedaçando um garrafa ou laçando-a para longe com uma pancada. Na verdade, ele ficou bem alterado, bêbado da silva, afinal, “Ted encheu a cara” (e não foi com água não viu! foi com muito álcool mesmo!).
Uma certa Helen foi se ajoelhar e para isso, she bent her knees. Isto é, ela flexionou os joelhos, encurvou as pernas um pouco. Mas depois disso Helen foi pra casa de uma amiga e, she bent the elbow. Não quero dizer que ela dobrou o braço, fez um ângulo de noventa graus, ou menos, com um dos seus membros superiores. Na verdade, nossa Helen ingeriu bebidas alcoólicas até ficar um tanto animadinha (posso até dizer que por causa disso, she hit the sofá (ou qualquer outra mobília ou parte da casa).
Expressões idiomáticas são de fato um graça. Traduzi-las é tanto divertido quanto complicado. E como se não bastasse trabalhar com estas expressões, ainda preciso me atentar para o registro, o nível de fala na qual são apresentadas (literário, formal, informal ou gíria). Por isso to kick the bucket não é simplesmente “morrer”, mas sim “bater as botas”; da mesma forma to hit the bottle não significa apenas “beber até ficar bêbado”, mas sim “encher a cara”. Na verdade, podemos chamar isto de “expressões PROBLEmáticas” (e não "idiomáticas")...
Por exemplo, se digo que “João vestiu o paletó novo”, alguém pode me perguntar para onde ele estava indo, ou quando comprou esse paletó, ou se era bonito, etcetera e tal. Mas afirmo que, “João vestiu o paletó de madeira”, com certeza ele não foi a uma festa a fantasia, mas “partiu dessa pra melhor”, “se foi”. Estas são apenas algumas das milhares expressões idiomáticas existentes em português. É preciso conhece-las previamente para não gerar traduções estranhas ou sem sentido algum.
Se ouço em língua inglesa que, Johny kicked the ball, entendo que um tal de Johny chutou a bola, não sei por que, não sei pra onde, não sei quando, mas ele de fato chutou a bola. Entretanto, se alguém me diz que, Johny kicked the bucket, não significa que ele estava zangado e de repente chutou o balde num acesso de raiva, ou mesmo por brincadeira. Esse Johny não está mais entre porque, he passed away, he’s gone, ou seja, “Johny bateu as botas” (meus pêsames...).
E alguém afirma que, Ted hit the ball. Ou seja, o dito cujo pegou um bastão a bateu na bola, que voou para longe ou só rolou um pouquinho (depende da força que esse tal de Ted exerceu contra a ela). Mas, se Ted hit the bottle, não posso imaginar Ted despedaçando um garrafa ou laçando-a para longe com uma pancada. Na verdade, ele ficou bem alterado, bêbado da silva, afinal, “Ted encheu a cara” (e não foi com água não viu! foi com muito álcool mesmo!).
Uma certa Helen foi se ajoelhar e para isso, she bent her knees. Isto é, ela flexionou os joelhos, encurvou as pernas um pouco. Mas depois disso Helen foi pra casa de uma amiga e, she bent the elbow. Não quero dizer que ela dobrou o braço, fez um ângulo de noventa graus, ou menos, com um dos seus membros superiores. Na verdade, nossa Helen ingeriu bebidas alcoólicas até ficar um tanto animadinha (posso até dizer que por causa disso, she hit the sofá (ou qualquer outra mobília ou parte da casa).
Expressões idiomáticas são de fato um graça. Traduzi-las é tanto divertido quanto complicado. E como se não bastasse trabalhar com estas expressões, ainda preciso me atentar para o registro, o nível de fala na qual são apresentadas (literário, formal, informal ou gíria). Por isso to kick the bucket não é simplesmente “morrer”, mas sim “bater as botas”; da mesma forma to hit the bottle não significa apenas “beber até ficar bêbado”, mas sim “encher a cara”. Na verdade, podemos chamar isto de “expressões PROBLEmáticas” (e não "idiomáticas")...
Peculiaridades da Tradução
É engraçado um fenômeno freqüente na tradução que chamo de "afunilamento". Como alguns termos são usados em um idioma com diversos significados, de acordo com contextos diferentes, podem perder ou ganhar significações nessa transferência de uma língua para outra.
Por exemplo, outro dia ao traduzir um contrato de locação de imóvel do alemão para o português me deparei com uma situação engraçada. Numa mesma frase, no mesmo parágrafo aparecia o termo Kündigung e o composto Kündigungsfrist. Pelo contexto, tratava-se de dois "kündigungs" totalmente opostos: o primeiro verti para "rescisão" (de contrato, no caso) e o segundo para "aviso" (prévio, -frist). Ou seja, o mesmo som, a mesma aparência, mas duas significações tão distintas que numa versão do português para o alemão seria difífcil imaginar uma mesma palavra como solução de duas idéias tão distantes como "rescisão" e "aviso".
Outro exemplo é o termo report em inglês. Nos textos que tenho traduzido do inglês para o português, report equivale a duas palavras (neste caso, não tão opostas): "relatório" e "comunicação" (de atividades financeiras suspeitas). E mais uma vez, em uma versão seria difícil descobrir que uma mesma palavra se encaixaria bem nestas duas situações em inglês.
E um terceiro exemplo é o processo tradutório da palavra "vida" do português para o japonês. Dependendo do contexto e dos termos, como pronomes, substantivos, adjetivos e verbos, que a acompanham, pode assumir tantas formas quanto os dedos da mão na língua dos samurai: inochi, jinsei, jinmei, seimei, ikikata, isshou, seikatsu, shougai, seibutsu e ninshin. Se fizermos uma comparação, concluiremos que demos uma bela afunilada a um conceito tão amplo em japonês!
É importante que nós tradutores estejamos bem acostumados a usar "funis" como ferramentas na hora de traduzir, se não..."
Por exemplo, outro dia ao traduzir um contrato de locação de imóvel do alemão para o português me deparei com uma situação engraçada. Numa mesma frase, no mesmo parágrafo aparecia o termo Kündigung e o composto Kündigungsfrist. Pelo contexto, tratava-se de dois "kündigungs" totalmente opostos: o primeiro verti para "rescisão" (de contrato, no caso) e o segundo para "aviso" (prévio, -frist). Ou seja, o mesmo som, a mesma aparência, mas duas significações tão distintas que numa versão do português para o alemão seria difífcil imaginar uma mesma palavra como solução de duas idéias tão distantes como "rescisão" e "aviso".
Outro exemplo é o termo report em inglês. Nos textos que tenho traduzido do inglês para o português, report equivale a duas palavras (neste caso, não tão opostas): "relatório" e "comunicação" (de atividades financeiras suspeitas). E mais uma vez, em uma versão seria difícil descobrir que uma mesma palavra se encaixaria bem nestas duas situações em inglês.
E um terceiro exemplo é o processo tradutório da palavra "vida" do português para o japonês. Dependendo do contexto e dos termos, como pronomes, substantivos, adjetivos e verbos, que a acompanham, pode assumir tantas formas quanto os dedos da mão na língua dos samurai: inochi, jinsei, jinmei, seimei, ikikata, isshou, seikatsu, shougai, seibutsu e ninshin. Se fizermos uma comparação, concluiremos que demos uma bela afunilada a um conceito tão amplo em japonês!
É importante que nós tradutores estejamos bem acostumados a usar "funis" como ferramentas na hora de traduzir, se não..."
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